Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay

Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay nasceu em 22 de fevereiro de 1843, na cidade do Rio de Janeiro. Filho de Félix Émile Taunay (2º Barão de Taunay, pintor e diretor da Academia Imperial de Belas Artes) e neto de Nicolas-Antoine Taunay, pintor francês integrante da Missão Artística Francesa. Foi bacharel em Letras pelo Colégio Pedro II (1858) e formou-se em Matemática e Ciências Naturais pela Escola Militar (1863).

Em sua carreira militar e política, destaca-se sua participação na Guerra do Paraguai como engenheiro militar (1864–1870). Sua experiência resultou no livro La Retraite de Laguna (1871), considerado um dos mais importantes relatos da campanha. Foi deputado-geral por Goiás (1872–1875) e presidente da província de Santa Catarina (1876–1877).

Recebeu o título de Visconde em 1889, pouco antes da queda da monarquia, à qual permaneceu fiel. Abandonou o Exército no posto de major, em 1885, para dedicar-se às letras e à política.

O Visconde de Taunay tornou-se escritor profissional no final da década de 1860, impulsionado por suas vivências na Guerra do Paraguai, embora tenha publicado seu primeiro texto ainda jovem, em 1858, no jornal estudantil O Tamoio.

1858 (Estreia juvenil): Aos 15 anos, publicou seu primeiro texto no jornal estudantil O Tamoio. No mesmo ano, formou-se bacharel em Letras pelo Colégio Pedro II.

1868 (Primeiro livro): Após participar da Expedição de Mato Grosso como engenheiro militar, reuniu suas anotações e desenhos para publicar Cenas de Viagem, sua primeira obra oficial.

1870 (Narrativa de guerra): Atuando como secretário do Conde d'Eu, compilou relatos do conflito armado e publicou Diário do Exército.

1871 (Consagração em francês e primeiro romance): Lançou sua obra-prima histórico-militar, La Retraite de Laguna (escrita originalmente em francês e posteriormente traduzida como A Retirada da Laguna). No mesmo ano, publicou seu primeiro romance de ficção, Mocidade de Trajano, sob o pseudônimo de Sílvio Dinarte.

1872 (Consagração no Romantismo): Publicou Inocência, seu romance regionalista mais famoso e aclamado, consolidando definitivamente seu nome na história da literatura brasileira.

Suas principais obras foram:

Cenas de Viagem (1868);

Diário do Exército (1870);

A Retirada da Laguna (1871);

Mocidade de Trajano (1871), publicada sob o pseudônimo Sílvio Dinarte;

Inocência (1872), considerada um marco do regionalismo brasileiro, retratando a vida sertaneja em Mato Grosso.

Também escreveu peças teatrais, memórias e estudos etnográficos.

Seu legado inclui:

• Fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira nº 13;

• Patrono da cadeira nº 17 da Academia Brasileira de Música;

• Seu filho, Afonso d'Escragnolle Taunay, destacou-se como historiador e membro da ABL;

• É lembrado como escritor que soube unir romantismo e realismo, trazendo para a literatura brasileira o sertão, seus costumes e dramas humanos.

O Visconde de Taunay não era espírita em vida, mas sua figura encontra-se fortemente ligada à literatura mediúnica brasileira. No meio espírita, atribui-se a ele a identidade do espírito "Alfredo", autor espiritual de romances clássicos psicografados pela médium Dolores Bacelar.

A ligação do Visconde com o Espiritismo teria ocorrido após sua desencarnação e está associada ao movimento espírita ligado à Federação Espírita Brasileira (FEB).

Na década de 1980, a médium Dolores Bacelar, conhecida por sua vinculação à FEB, passou a psicografar obras atribuídas a um espírito que assinava como "Alfredo". Segundo pesquisadores espíritas, entre eles Rômulo Bacelar e Izabel Vitusso, esse espírito teria sido identificado como o Visconde de Taunay.

A obra mais conhecida atribuída ao espírito do escritor é A Mansão Renoir, romance que se tornou um clássico da literatura espírita.

Visconde de Taunay e a noite mediúnica

Certa noite, acordou em altas horas da madrugada. Perdera completamente o sono e, durante a vigília, todos os acontecimentos da Retirada da Laguna passaram a reproduzir-se em sua mente.

Muitos escritores, sem o perceberem, sofrem a influência dos Espíritos. Outros, durante o processo de criação literária, aproximam-se de um estado semelhante ao transe mediúnico. É o caso frequentemente citado do Visconde de Taunay que, ao iniciar a redação de A Retirada da Laguna — obra que escreveu em menos de trinta dias — experimentou, segundo suas próprias palavras, “violentos calafrios”, “arrepios” e até mesmo “o pavor da morte”.

Em suas Memórias, publicadas em edição da Biblioteca do Exército em 1960, encontra-se, à página 303, uma passagem reveladora. Nela, Taunay relata que, desde o retorno da campanha, era incentivado por amigos e familiares a registrar os acontecimentos vividos. Seu pai, sobretudo, insistia para que aproveitasse a oportunidade de perpetuar aqueles fatos históricos e homenagear os companheiros que haviam tombado.

Durante muito tempo, entretanto, adiou a tarefa. Quando finalmente decidiu iniciar o trabalho, sentou-se para escrever e percebeu grandes lacunas em suas recordações. Os acontecimentos não lhe surgiam em sequência cronológica; datas, dias e meses confundiam-se. De fatos essenciais à narrativa conservava apenas lembranças vagas e incompletas.

Conseguiu redigir apenas duas ou três páginas, desanimando logo em seguida. Chegou a pensar em resumir tudo numa simples brochura de poucas páginas. Sentia-se abatido e dava razão às críticas afetuosas de seu pai.

Alguns dias depois, porém, ocorreu um episódio singular.

Certa noite, despertou subitamente e perdeu completamente o sono. Durante a vigília, os acontecimentos da Retirada da Laguna reapareceram em sua mente com extraordinária nitidez. As cenas surgiam de forma tão clara e impressionante que ele experimentou fortes emoções, acompanhadas de calafrios e profundo temor.

Segundo a interpretação espírita posteriormente atribuída ao episódio, Taunay teria percebido ao seu lado a presença de antigos companheiros desencarnados da campanha militar, cujas recordações se desenrolavam diante dele como imagens vivas.

Sem desperdiçar um instante daquela súbita inspiração, acendeu uma vela, levantou-se e passou mais de duas horas tomando notas febrilmente. Em diversos momentos voltou a sentir arrepios e a intensa emoção provocada pela recordação vívida dos sofrimentos e horrores que testemunhara.

Em apenas uma semana concluiu as duas primeiras partes da obra, que foram imediatamente levadas ao Imperador para apreciação. O interesse demonstrado por Dom Pedro II e as observações que lhe transmitiu estimularam-no a prosseguir com ainda maior empenho, somando-se às constantes exortações de seu pai.

Dessa forma, A Retirada da Laguna foi concluída em pouco mais de vinte dias. Taunay contava então cerca de vinte e cinco anos de idade.

Posteriormente, quando o Marquês da Cruz regressou de Mato Grosso e se preparava para seguir para a guerra no Paraguai, Taunay mostrou-lhe o manuscrito da obra. Após a leitura atenta, o Marquês comentou:

— Como é, Taunay, que você conseguiu lembrar-se com tanta exatidão de tantos acontecimentos e de tão numerosos incidentes?

O Visconde perguntou-lhe se encontrara exageros na narrativa dos sofrimentos vividos durante a campanha.

— De modo algum — respondeu-lhe vivamente. — Em muitos pontos pareceu-me até que você suavizou as cores. Enfim, não foi em vão que tanto padecemos; aí está o que ficou escrito para testemunhá-lo, talvez para sempre!

O Visconde de Taunay faleceu em 25 de janeiro de 1899, no Rio de Janeiro, aos 55 anos.

Vinha sofrendo de problemas de saúde, especialmente complicações cardíacas e respiratórias, que se agravaram nos últimos anos de vida. Morreu em sua residência, cercado pelos familiares, após um período de afastamento da vida pública.

Sua morte foi profundamente sentida nos meios literário e político, pois era um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e uma das figuras mais respeitadas da cultura brasileira de seu tempo.

Foi homenageado como um dos grandes romancistas do século XIX, especialmente pelas obras Inocência e A Retirada da Laguna. Seu filho, Afonso d'Escragnolle Taunay, deu continuidade ao legado intelectual da família, tornando-se renomado historiador.



Comentário

0 Comentários