Coelho Neto
Coelho Neto, cujo nome completo era Henrique Maximiano Coelho Neto, foi escritor, político e professor. Declarou-se espírita em 1923, após um episódio místico envolvendo sua família. Sua relação com o Espiritismo mistura fatos biográficos e narrativas literárias, tornando-se tema debatido até hoje.
Coelho Neto nasceu na Rua da Palma, em Caxias, Maranhão, em 21 de fevereiro de 1864, e desencarnou no Rio de Janeiro, em 28 de novembro de 1934. Filho do português António da Fonseca Coelho e da indígena Ana Silvestre Coelho, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro quando contava apenas seis anos de idade. Estudou nas duas mais tradicionais escolas da capital: o Colégio de São Bento e o Colégio Pedro II, onde realizou os cursos preparatórios. Ingressou depois na Faculdade de Medicina, que abandonou em seguida, matriculando-se, em 1883, na Faculdade de Direito de São Paulo.
No curso jurídico, Coelho Neto expandiu suas revoltas, envolvendo-se logo em um movimento estudantil contra um professor. Para evitar represálias, transferiu-se para a Faculdade de Direito do Recife, onde concluiu o primeiro ano, tendo como principal mestre Tobias Barreto. Após esse período, retornou para São Paulo, em 1885, participando de movimentos abolicionistas e republicanos. Entrou novamente em choque com professores e não chegou a concluir o curso.
Ao retornar ao Rio de Janeiro, formou, ao lado de escritores como Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos e Paula Ney, um grupo cujas experiências viria a retratar no romance A Conquista, publicado em 1899.
Ativo na campanha pela extinção da escravatura, aliou-se a José do Patrocínio. Trabalhou como colaborador do jornal Gazeta da Tarde e, depois, de A Cidade do Rio, onde exerceu a função de secretário e iniciou a publicação de seus textos literários.
Coelho Neto casou-se, em 1890, com Maria Gabriela Brandão, filha do professor Alberto Olympio Brandão, com quem teve catorze filhos. Nesse mesmo ano, foi nomeado secretário do governo do estado e, em 1891, assumiu a direção de Negócios do Estado.
Em 1892, foi nomeado professor de História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes. Posteriormente, lecionou Literatura no Colégio Pedro II. Em 1910, foi nomeado para as cátedras de História do Teatro e Literatura Dramática na Escola de Arte Dramática do Rio de Janeiro, da qual mais tarde se tornaria diretor.
Na política, tornou-se deputado federal pelo estado natal, em 1909, sendo reeleito em 1917. Ocupou ainda diversos cargos públicos e integrou importantes instituições culturais.
Em 1923, converteu-se ao Espiritismo, proferindo um discurso no Salão da Guarda Velha, no Rio de Janeiro, sobre sua adesão à doutrina. A respeito desse episódio, o Jornal do Brasil publicou, em 7 de junho de 1923, uma entrevista com o escritor — anteriormente um intransigente adversário do Espiritismo —, relatando sua conversão após participar, por meio da extensão telefônica de seu escritório, de uma conversa entre sua neta Ester, falecida ainda criança, e a mãe dela. O episódio foi interpretado como uma experiência de transcomunicação instrumental.
Após a publicação da entrevista, periódicos espíritas celebraram sua adesão, considerando-o convertido à doutrina de Allan Kardec.
Tal caso afigura-se raro em toda a história da fenomenologia espírita e, antes mesmo de ser divulgado pela imprensa, parece já ser conhecido de intelectuais que frequentavam a casa de Coelho Neto.
Em sua entrevista, intitulada “Conversão”, Coelho Neto afirma:
“Sim, tens razão. Combati, com todas as minhas forças, o que sempre considerei a mais ridícula das superstições. Essa doutrina, hoje triunfante em todo o mundo, não teve, entre nós, adversário mais intransigente, mais cruel do que eu.”
Mais adiante, comparando sua experiência à conversão de Paulo de Tarso, declara:
“Pois, meu caro, a minha estrada de Damasco foi o meu escritório e, se nele não irradiou a luz celestial que deslumbrou São Paulo, soou uma voz do Além, voz amada, cujo eco não morre em meu coração.”
O escritor narra, então, o sofrimento vivido por sua família após a morte da neta Ester e a profunda tristeza de sua filha Júlia. Segundo o relato, certa noite sua esposa informou-lhe que Júlia estava falando ao telefone com a filha desencarnada. Intrigado, Coelho Neto ouviu a conversa por meio da extensão telefônica instalada em seu escritório e afirmou reconhecer a voz da neta falecida.
O episódio impressionou profundamente o escritor, levando-o a rever suas antigas convicções e aproximando-o do Espiritismo.
Posteriormente, Coelho Neto não se restringiu apenas às sessões espíritas. Além da repercussão provocada por sua adesão, o escritor ofereceu nova contribuição à doutrina ao realizar a conferência A Vida Além da Morte, no Abrigo Thereza de Jesus, em 14 de setembro de 1924.
O texto da conferência, com cerca de 45 páginas, foi impresso no Rio de Janeiro às expensas de sócios da instituição e distribuído gratuitamente. Os direitos autorais foram cedidos pelo próprio Coelho Neto. Atualmente, o opúsculo é considerado raríssimo.
Na abertura da conferência, declarou:
“Nunca fui cético, nem tampouco fanático.”
E acrescentou:
“A minha crença nova nasceu da dor.”
Ao longo da palestra, o escritor estabelece comparações entre o Espiritismo e o Catolicismo, discute fenômenos mediúnicos e defende a sobrevivência da alma após a morte. Também faz referências à Primeira Guerra Mundial, às dores humanas e à necessidade de evolução espiritual.
Coelho Neto tornou-se, assim, um dos nomes mais conhecidos ligados ao Espiritismo brasileiro nas primeiras décadas do século XX. Sua adesão teve grande repercussão intelectual e religiosa, especialmente por tratar-se de um escritor já consagrado nacionalmente.
Ao comentar a reencarnação, o autor menciona pensadores e religiosos que, segundo ele, aceitaram essa ideia ao longo da história, entre eles Santo Agostinho, Orígenes, Platão, Plotino, Leibniz, Hegel e Schopenhauer.
Também defendeu a distinção entre Espiritismo e mediunismo, afirmando que os fenômenos mediúnicos existem em diversas religiões, mas que o Espiritismo constitui uma doutrina filosófica, científica e religiosa organizada.
O escritor ainda cita nomes como William Shakespeare, Monteiro Lobato e George Sand, relacionando-os a temas espirituais ou reencarnacionistas.
Henrique Maximiano Coelho Neto faleceu em 28 de novembro de 1934, no Rio de Janeiro, aos 70 anos, vítima de complicações decorrentes de uma pneumonia.

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