Guimarães Rosa
João Guimarães Rosa (1908–1967), médico, diplomata e escritor mineiro, é considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira. Embora não tenha sido espírita praticante, sua vida e obra são frequentemente interpretadas, no meio espírita, por sua relação com intuições, pressentimentos e experiências supranormais, além da espiritualidade presente em seus textos.
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, pequena cidade do interior de Minas Gerais, no dia 27 de junho de 1908. Filho de um comerciante da região, ali realizou seus estudos primários. Ainda pequeno, mudou-se para a casa dos avós, em Belo Horizonte, onde concluiu o curso primário. Iniciou o curso secundário no Colégio Santo Antônio, em São João del-Rei, mas logo retornou a Belo Horizonte, onde se formou. O tio Adonias, fazendeiro abastado, proprietário da Fazenda Sarandi, patrocinou seus estudos no Colégio Arnaldo. Em 1925, matriculou-se na então Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos, tendo sido o orador da turma, em 1930.
Em 27 de junho de 1930, com apenas 22 anos, casou-se com Lígia Cabral Penna, de 16, com quem teve duas filhas: Vilma e Agnes. O casamento durou poucos anos. Formado em Medicina em 1930, passou a exercer a profissão em Itaguara, então distrito de Itaúna, onde permaneceu cerca de dois anos. Foi nessa localidade que teve maior contato com os elementos do sertão, que também serviram de inspiração à sua obra.
Atuou como médico em Itaguara e Barbacena, além de servir como voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932. Durante esse período, retornou a Belo Horizonte para integrar a Força Pública de Minas Gerais (atual Polícia Militar), cujo governo estava alinhado ao presidente Getúlio Vargas. No setor do Túnel, em Passa Quatro, tomou contato com o futuro presidente Juscelino Kubitschek, também médico formado na mesma instituição. Posteriormente, ingressou por concurso na Força Pública e, em 1933, foi designado para Barbacena, como oficial médico do 9º Batalhão de Infantaria.
Após a Revolução, seguiu para o Rio de Janeiro, onde prestou concurso para o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores). Aprovado em 1934, iniciou a carreira diplomática, servindo em Hamburgo, Paris e Bogotá. Seu primeiro posto no exterior foi o de cônsul-adjunto em Hamburgo, na Alemanha, entre 1938 e 1942. Ali conheceu Aracy Moebius de Carvalho, com quem se casou. Funcionária do Itamaraty, Aracy destacou-se por sua ação humanitária durante a Segunda Guerra Mundial, ao facilitar a concessão de vistos a judeus que buscavam refúgio no Brasil. Por esse gesto de coragem, foi posteriormente homenageada pelo Estado de Israel, sendo a única mulher brasileira reconhecida no Jardim dos Justos entre as Nações, no memorial Yad Vashem, em Jerusalém.
Publicou Sagarana (1946), Grande Sertão: Veredas (1956) e Corpo de Baile (1956), obras que revolucionaram a linguagem literária brasileira.
Trajetória espiritual e interpretação espírita
Rosa relatava que muitas de suas histórias “lhe chegavam por via supranormal”, além de mencionar sonhos premonitórios e intuições. Adiou diversas vezes sua posse na Academia Brasileira de Letras por pressentir que desencarnaria logo após — o que, de fato, ocorreu três dias depois da cerimônia.
Grande Sertão: Veredas é frequentemente interpretado, em círculos espíritas, como uma metáfora da luta da alma humana, com reflexões sobre destino, fé e transcendência. Nesse contexto, Rosa é visto como alguém dotado de mediunidade intuitiva, canalizando percepções espirituais em sua literatura.
Fenômenos com Guimarães Rosa
Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas e de outras obras também publicadas nos Estados Unidos e em países europeus, surpreendeu leitores ao declarar, em entrevista ao jornal O Estado de Minas (edição de 26 de novembro de 1967), que muitas de suas histórias lhe chegavam por via supranormal. Referiu-se, ainda, a fenômenos como sonhos premonitórios e telepatia. Eis um trecho de seu relato:
“Tenho de segredar que, embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e, em princípio, rechace a experimentação metapsíquica, minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos: sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias.
No plano da arte e da criação, já de si em boa parte subliminar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e, às vezes, quase equivalente à reza, decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez seja correto confessar que as estórias que apanho diferem entre si no modo de surgir. Buriti, por exemplo, quase inteira, ‘assisti’, em 1948, num sonho repetido por duas noites. Conversa de Bois recebi-a ao amanhecer de um sábado, substituindo versão anterior que eu julgara definitiva. A Terceira Margem do Rio veio-me na rua, em inspiração pronta e brusca, tão ‘de fora’ que instintivamente levantei as mãos para ‘pegá-la’, como se fosse uma bola. Campo Geral foi-se formando no papel quase espontaneamente. Quanto ao Grande Sertão, seria longo demais explicar como foi ditado, sustentado e protegido por forças muito estranhas.”
Relatou também a experiência de interromper a escrita de um romance — A Fazedora — ao perceber que a enfermidade do personagem parecia refletir-se em si próprio, o que lhe causou temor. Tempos depois, afirmou ter adoecido de modo semelhante ao descrito na obra, além de reconhecer, em uma casa real, o cenário que imaginara para a narrativa.
A vida de Guimarães Rosa esteve, assim, envolvida por uma atmosfera frequentemente associada à mediunidade. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, adiou por anos a posse, temendo a própria morte após a cerimônia. Segundo o historiador Afonso Arinos de Melo Franco, entre seus íntimos comentava-se tal receio.
Finalmente, tomou posse em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, em 19 de novembro, faleceu no Rio de Janeiro, vítima de infarto. Em seu discurso, deixara a frase, frequentemente lembrada como prenúncio: “A gente morre é para provar que viveu.”

Comentário