Quanto mais pessoas dispostas a servir, mais pessoas alcançamos
Natural de Araraquara (SP) e residente em Londrina (PR) desde 2022, Bruno Pontes Fuentes mudou-se para a cidade paranaense por conta dos estudos, permanecendo até os dias atuais. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), de São Paulo (SP), e pós-graduando de MBA em Marketing pela USP ESALQ, atualmente está como coordenador do projeto Novos Mensageiros, iniciativa voltada à divulgação da Doutrina Espírita nas redes sociais e ao acolhimento fraterno. Em sua trajetória dentro da Doutrina Espírita, exerceu a função de evangelizador da mocidade espírita, atuando diretamente na condução e organização de atividades voltadas aos jovens.
Quando e como se tornou espírita?
Sou espírita desde criança. Minha avó sempre foi espírita e, desde muito novo, comecei a frequentar uma casa em Araraquara. Portanto, o Espiritismo sempre esteve presente na minha formação e na minha vida.
Houve algum acontecimento especial que tenha fortalecido sua adesão ao Espiritismo?
Minha avó teve uma influência muito importante. Ela sempre foi um grande apoio e um grande pilar na minha caminhada dentro do Espiritismo. Como eu cresci nesse ambiente, não houve exatamente um momento único de conversão, mas sim uma construção desde a infância, muito influenciada pela minha família e, especialmente, por ela.
Fale-nos de sua trajetória e sua vivência espírita.
Desde pequeno, participei das atividades da casa espírita. Comecei na pré-mocidade, depois passei pela mocidade e, mais tarde, quando morei em São José do Rio Preto, tive a oportunidade de atuar como evangelizador, conduzindo a mocidade. Foi um período de muito aprendizado e de grande importância para mim, pois foi justamente nesse ambiente que comecei a perceber uma dificuldade que acredito existir em muitas casas espíritas: como aproximar os jovens? Como envolvê-los e fazer com que eles se sintam realmente parte do movimento?
Essa inquietação acabou sendo uma das sementes que, algum tempo depois, contribuíram para o surgimento do Novos Mensageiros.
Você mencionou o projeto Novos Mensageiros. Como ele foi idealizado?
A história é interessante, pois nós nunca nos imaginamos gravando vídeos ou produzindo conteúdo para a internet.
Tudo começou a partir de uma iniciativa dentro da casa espírita em São José do Rio Preto, com o objetivo de divulgar as atividades da casa. Nós nos voluntariamos para gravar. A partir daí, percebemos que as redes sociais também poderiam ser um espaço importante para levar a mensagem espírita e trazer mais jovens para a Doutrina Espírita. Começamos de uma forma muito simples. No início, éramos basicamente eu e a Luiza, minha noiva. Nós gravávamos os vídeos em um escritório, de forma bem simples.
Durante cerca de seis meses, publicamos conteúdos com pouquíssimas visualizações. Tivemos vídeo com praticamente nenhuma visualização; inclusive, houve um que chegou a marcar zero, e eu nem sabia que isso era possível (risos). Mas continuamos firmes.
Sempre utilizamos a base doutrinária como fundamento do conteúdo e, depois de aproximadamente seis meses, alguns vídeos começaram a estourar, a página cresceu e novos voluntários começaram a chegar.
Hoje, estamos completando dois anos de projeto, com mais de 100 mil seguidores no Instagram, além da nossa presença no TikTok e no YouTube. É uma alegria muito grande perceber que algo que começou de forma tão simples hoje consegue levar a mensagem espírita para tantas pessoas.
Conte-nos como esse projeto está estruturado e qual o seu alcance.
O Novos Mensageiros começou essencialmente como um projeto de divulgação do Espiritismo nas redes sociais, mas o próprio crescimento da página nos mostrou que havia uma necessidade muito maior.
Em determinado momento, publicamos um conteúdo sobre depressão que alcançou mais de 600 mil visualizações. Quando fomos entender o motivo daquela repercussão, encontramos mais de 400 comentários de pessoas relatando sofrimento muito intenso. Algumas diziam que não queriam mais viver; outras relatavam já ter pensado ou até planejado tirar a própria vida. Aquilo nos mostrou um mundo que até então não conhecíamos dentro das redes sociais. Começamos a entrar em contato com algumas dessas pessoas e tivemos um primeiro caso bastante marcante, em uma situação crítica.
A partir dali, percebemos que não bastava apenas produzir conteúdo: precisávamos criar alguma estrutura de acolhimento. Foi assim que nasceu nossa frente de atendimento fraterno on-line.
Hoje, entramos em contato com essas pessoas em sofrimento e as convidamos para um atendimento fraterno. Nessa conversa, buscamos acolhê-las e mostrar que não estão mais sozinhas. Uma vez que aceitam a ajuda, nós as encaminhamos para o tratamento psicológico e o tratamento espiritual.
Contamos com uma rede de psicólogos voluntários que oferecem atendimento gratuito e também com parcerias com casas espíritas que realizam o tratamento espiritual de forma on-line. Atualmente, o Novos Mensageiros conta com mais de 40 voluntários, distribuídos entre criação de conteúdo, comunicação, atendimento fraterno, psicologia e outras frentes de apoio.
Qualquer pessoa pode participar do projeto?
Sim. Existem muitas formas de contribuir.
Para atuar diretamente no atendimento fraterno de pessoas em sofrimento emocional, temos alguns critérios específicos: é necessário ser espírita, ter mais de 18 anos e passar pela preparação e pelo treinamento do nosso projeto antes de começar os atendimentos.
Além disso, o Novos Mensageiros possui muitas outras frentes. A pessoa pode ajudar na criação de conteúdo, edição de vídeos, comunicação, organização, desenvolvimento de projetos, mobilização de novos voluntários, aproximação de psicólogos e também em futuras iniciativas sociais e de caridade.
Não exigimos que a pessoa chegue sabendo fazer tudo. Procuramos entender sua disponibilidade, seus interesses e suas habilidades e, a partir disso, encontrar uma frente em que ela possa contribuir. Em muitos casos, o próprio projeto oferece o direcionamento e a capacitação necessários.
De suas lembranças, há algum fato marcante que você poderia relatar?
Um dos fatos que mais me marcou foi justamente um dos primeiros acolhimentos que fizemos. Encontramos o comentário de uma pessoa em uma publicação sobre depressão. Ela dizia que já havia tomado a decisão de tirar a própria vida e que, inclusive, tinha estabelecido uma data. Entramos em contato naquele mesmo período. Ela respondeu, e começamos a conversar.
É uma história longa e bastante delicada, mas, resumidamente, conseguimos permanecer próximos naquele momento crítico e, mesmo aparentemente decidida, a pessoa acabou desistindo de tirar a própria vida.
Aquilo mudou muito a nossa visão do projeto. Percebemos que, do outro lado de uma tela, não existem números, curtidas ou visualizações. Existem pessoas. Às vezes, uma mensagem que para nós parece simples chega exatamente no momento em que alguém mais precisava dela.
Esse episódio foi determinante para entendermos que o Novos Mensageiros também precisava assumir uma responsabilidade de acolhimento.
Uma questão momentosa diz respeito à juventude espírita, cuja participação no movimento não é mais como foi no passado. Qual o seu entendimento a respeito do assunto?
Acredito que o movimento espírita e, especialmente, as casas espíritas precisam pensar cada vez mais em como aproximar o jovem e, principalmente, em fazer com que ele participe de verdade. Não basta apenas convidar o jovem para estar presente. Ele precisa se sentir pertencente, ver propósito no que faz e entender a importância da sua ação.
No Novos Mensageiros, por exemplo, todas as nossas frentes são lideradas por jovens. Esse protagonismo faz muita diferença.
É claro que o jovem não vai chegar sabendo tudo. Ele precisa aprender, estudar e ser orientado. Mas existem inúmeras áreas em que pode contribuir, como comunicação, tecnologia, produção de conteúdo, projetos sociais, divulgação doutrinária, organização e tantas outras.
Às vezes, queremos trazer o jovem para dentro da casa espírita, mas não damos a ele espaço para construir nada. Quando ele sente que aquilo que faz não tem importância ou propósito, naturalmente acaba se afastando.
Precisamos ouvir mais os jovens e permitir que eles também ajudem a construir o movimento espírita.
O mundo enfrenta dificuldades imensas não apenas nas questões econômicas e sociais. Em face disso, como você imagina que deva ser o comportamento dos espíritas e, principalmente, dos que estão à frente das entidades federativas?
Acredito que nossa postura não pode se afastar de uma das grandes máximas apresentadas por Kardec: “Fora da caridade não há salvação”.
Vivemos em uma sociedade em que existe muito sofrimento que nem sempre conseguimos enxergar. Existem pessoas ao nosso lado passando por dificuldades emocionais, espirituais, sociais e econômicas extremamente profundas.
O estudo é indispensável. Precisamos estudar a Doutrina Espírita, compreender seus princípios e buscar nosso desenvolvimento moral, mas acredito que precisamos cada vez mais conciliar estudo e ação.
A pergunta precisa ser também: o que esse conhecimento está transformando na vida do nosso semelhante?
Hoje, temos ferramentas que nunca tivemos. A internet, a tecnologia e a capacidade de comunicação permitem alcançar uma pessoa do outro lado do país em poucos segundos. Mesmo diante de tantas dificuldades sociais e econômicas, talvez nunca tenhamos tido tantos recursos para ajudar.
Por isso, acredito que aqueles que estão à frente das instituições também precisam estimular uma cultura de serviço, inovação e ação. É preciso preservar os fundamentos da Doutrina sem ter medo de utilizar novas ferramentas para levar acolhimento, conhecimento e auxílio a quem precisa.
Como você avalia o trabalho de divulgação espírita atualmente realizado no Brasil?
Vejo que temos avançado bastante, mas acredito que ainda precisamos acelerar esse movimento.
As pessoas estão nas redes sociais. E não estou falando somente dos jovens. Hoje, é comum alguém passar duas, três ou até quatro horas por dia no ambiente digital.
Se é ali que as pessoas estão, também precisamos estar ali, levando uma mensagem de esperança, reflexão e conhecimento.
Acredito que o movimento espírita demorou um pouco para compreender todo o potencial dessas ferramentas. Isso está mudando, e hoje já existem inúmeros trabalhos muito bons sendo desenvolvidos. Ainda temos, porém, um espaço enorme para crescer. Mas isso não significa simplificar ou distorcer a Doutrina para conseguir visualizações. Pelo contrário. O desafio é aprender a utilizar a linguagem e os formatos atuais sem perder a profundidade e a base doutrinária.
Quais são os canais pelos quais nossos leitores podem encontrar o projeto?
Estamos presentes no Instagram, TikTok e YouTube, utilizando o mesmo perfil: @novosmensageiros.
Algo mais que queira acrescentar?
O Novos Mensageiros é um projeto relativamente novo. São apenas dois anos de trabalho, mas somos muito gratos por tudo o que aconteceu nesse período. Recebemos inúmeros relatos de pessoas que foram tocadas por algum conteúdo, que voltaram a procurar uma casa espírita, que encontraram apoio em um momento difícil ou que chegaram ao projeto em momentos extremamente delicados e encontraram alguém disposto a escutá-las.
Isso muda completamente nossa perspectiva sobre aquilo que realmente importa.
Também gostaria de deixar um convite a quem sentir vontade de ajudar, pois existem muitas maneiras de participar, seja na divulgação da Doutrina Espírita, na produção de conteúdo, na psicologia, no atendimento fraterno ou em outras frentes que estamos construindo.
Quanto mais pessoas dispostas a servir se aproximarem, mais pessoas conseguiremos alcançar.
Suas palavras finais.
Acredito que uma das grandes oportunidades que temos hoje é utilizar as ferramentas do nosso tempo para servir. Vez ou outra, pensamos que, para fazer a diferença, precisamos realizar algo extraordinário, mas, em muitos casos, começamos com uma mensagem, uma conversa, um vídeo, uma escuta ou simplesmente com a disposição de estar presente para alguém.
O Novos Mensageiros nasceu de uma ideia pequena, com duas pessoas gravando vídeos dentro de um quarto. Hoje, são mais de 40 voluntários e milhares de pessoas alcançadas diariamente.
Quando colocamos aquilo que temos a serviço do bem, não sabemos até onde uma pequena iniciativa pode chegar.
Que possamos estudar cada vez mais a Doutrina Espírita, mas que esse conhecimento também nos mova para a ação e que consigamos transformar aquilo que aprendemos em acolhimento, caridade e serviço ao próximo.
No fim, acredito que é isso que realmente dá sentido a todo esse trabalho.

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