Estilingue - Cláudio Bueno
“Mas que é a teoria ao lado da prática?” ¹ - Allan Kardec
O menino puxou a borracha do estilingue, firme, mirou com fria paciência e soltou uma das mãos. A pedra zuniu entre a forquilha bem-enquadrada, seguiu velozmente seu inapelável curso, só parando ao explodir no corpo flácido de penugens coloridas. Um pássaro.
O golpe violento e inesperado não lhe permitiu qualquer reação. O som surdo do projétil no peito fofo provocou a revoada do bando amigo. A vítima inerte pendeu em desequilíbrio total, esquecida de si mesma, varou o ar em risco vertical e caiu sobre a folhagem do chão, morta.
O menino vasculhou o mato, ansioso. Encontrou a caça tristemente amontoada, de olhos abertos, súplices, como a pedir explicação. Levantou o pássaro com uma das mãos, com a outra arrumou as tiras do estilingue no pescoço. Riu, não acreditando na pontaria certeira. Deu alguns passos, saiu do mato e pegou a estradinha de volta para casa, as canelinhas finíssimas do bichinho enganchadas nos dedos infantis. Mostrará o troféu aos meninos da vila.
Em sentido contrário, na ruazinha de terra, encontro-o caminhando rápido, quase correndo.
– Ei, guri, o que fez?!
Aproximo-me dele, amistoso, já compreendendo tudo e disposto a não deixá-lo passar sem antes me ouvir.
– Achei esse bicho na beirinha do mato.
– Está morto? Por que o leva?
O garoto olha para os lados na expectativa de que alguém o desembarace do imprevisto obstáculo.
– Você tem algo a ver com isso? – pergunto-lhe, apontando para o pássaro.
– Não, nada!
– Está falando a verdade? E essa arma no seu pescoço?!
– Não é arma.
– Você não acha que um estilingue possa matar um pássaro?
– Mata...
– Ora, um apetrecho que mata é então uma arma!
– ...
– Olhe, quero lhe fazer uma proposta – digo ao menino, cujos olhos trazem um certo terror. – Quer trocar comigo o seu estilingue? Dou a você um brinquedo e mais um lindo livro. O que você acha?
– Ah, não sei... eu gosto de brincar com ele.
Percebo em seu rosto um lampejo que não deixa dúvidas. Aproveito o ingênuo remorso que começa a brotar no seu peito assustado e aumento a oferta:
– Dou-lhe ainda mais um belo livro de histórias pelas pedras que você tem no bolso!
Ele empalidece, baixando o olhar.
– Foi você, não foi?
O menino olha para mim sem reação, súplice, claramente pesaroso. Aperta os lábios, deixando o pássaro cair na terra.
Estendo a mão, aguardo que ele busque as pedras no bolso e as entregue com o estilingue.
Sinto que é sincero quando me promete que não fará aquilo outra vez.
A tarde começa a baixar enquanto abrimos com as mãos pequena cova para enterrar a avezinha. (*)
- (Revista Espírita, novembro de 1865, “Alocução”)
*Texto de Um sorriso como resposta, histórias para embalar o coração, Mythos Editora, 2011).

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